Nong Toom

Nong Toom: O Belo Boxeador

Parinya Charoenphol, mais conhecida pelo apelido Nong Toom, é uma lutadora de muay thai, atriz e modelo que chamou a atenção internacional por sua história de vida única. Nong Toom é uma mulher transgênero que ganhou destaque no mundo do muay thai.

Quando falamos sobre atletas transgêneros nos esportes de combate, o nome de Parinya Charoenphol, ou Nong Toom, raramente aparece na lista, apesar de sua carreira pioneira. Essa figura enigmática ganhou destaque no final da década de 1990 como uma “kathoey” — termo tailandês para designar mulheres transgêneros que ainda não se submeteram à cirurgia de redesignação de gênero.

Mesmo se destacando na arte dos oito membros, Nong Toom enfrentava dificuldades com sua identidade de gênero. Sua decisão de viver abertamente como mulher trans foi pioneira, especialmente em um esporte dominado por homens como o muay thai.

Nong Toom é frequentemente citada como um exemplo a ser seguido na comunidade LGBTQ+. Sua história é vista como um exemplo de coragem e determinação, servindo de inspiração para outras pessoas que estão enfrentando dificuldades com suas próprias identidades.

Nome de nascimento:Parinya Charoenphol
Nome tailandês:Pranaya Cherinpol
Data de nascimento:9 de junho de 1981
Local de nascimento:Chiang Mai, Tailândia
Apelido:Toom, Nong Toom, Parinya Kiatbusaba
Ocupações:Lutadora de Muay Thai, atriz e modelo

Quem é Nong Toom?

Parinya Charoenpho, também conhecida como Nong Toom, era uma lutadora de muay thai. Ao competir no icônico Estádio Lumpinee, essa atleta lutava usando maquiagem e vestida com roupas tradicionalmente femininas. Isso aconteceu no final da década de 1990. No entanto, para ela, não se tratava de um hobby, mas sim de sua carreira.

O lindo boxer

A mídia especializada em esportes de combate estava entusiasmada e empolgada com essa lutadora. Com apenas 16 anos, Nong Toom derrotava adversários maiores, homens, e lhes dava um beijinho depois, chamando muita atenção. A imagem de uma mulher derrotando um homem e, em seguida, beijando-o, de fato ajudou a aumentar o público no Estádio Lumpinee naquela época. No total, Nong Toom disputou dezenas de lutas como profissional.

Ela teve sua primeira luta com apenas 12 anos, consolidando o que seria sua carreira futura: uma vida dedicada aos esportes de combate. Originalmente, Nong Toom vinha de uma família nômade que acabaria por se estabelecer na província de Chiang Mai. Para ajudar a sustentar a família, ela se tornou monja budista, como é tradição na Tailândia. No fim das contas, ela foi expulsa.

Nong Toom começou a lutar muay thai em uma feira para sustentar sua família. Lutar muay thai ainda criança para ganhar dinheiro para a família é uma história muito comum. Apesar das vaias da plateia, que a chamavam de “maricas”, ela saiu vitoriosa da luta e levou para casa o dinheiro tão necessário para sua família. Em sua primeira luta, ela ganhou 500 baht, menos de US$ 15. Muitas estrelas atuais do Muay Thai, como Rodtang e Stamp Fairtex, começaram no Muay Thai para sustentar suas famílias.

Além de sustentar a família com sua carreira no esporte de luta, ela também economizava dinheiro para, um dia, poder pagar pela cirurgia de afirmação de gênero. Ela conseguiu isso: em 1999, anunciou sua aposentadoria para se submeter à cirurgia de afirmação de gênero, mas voltou às lutas profissionais em 2007.

Quanto à escolha de um esporte de luta para ganhar a vida, ela explicou:

"Não associo feminilidade a fraqueza. Nasci na pobreza e não havia muitas maneiras de ganhar muito dinheiro. Também sabia que precisava ser forte para proteger a mim mesma e às pessoas que amava. Nasci na pobreza e não havia muitas maneiras de ganhar muito dinheiro. Não penso em gênero. Penso em vencer.”

O que é um Kathoey?

Ela era conhecida como uma Kathoey. O termo “Kathoey” é específico da Tailândia e se refere a uma pessoa transgênero de homem para mulher ou a um homem gay afeminado. Embora o termo seja frequentemente traduzido para o inglês como “ladyboy”, é importante observar que “Kathoey” carrega conotações culturais e sociais que podem não se alinhar totalmente com os conceitos ocidentais de identidade transgênero ou não conformidade de gênero.

Um kathoey pode ou não ter se submetido à terapia de reposição hormonal ou a cirurgias de confirmação de gênero. Tradicionalmente, os kathoeys têm desempenhado um papel visível na cultura tailandesa e podem ser encontrados em diversas profissões, incluindo entretenimento, comércio varejista e salões de beleza, entre outras. No entanto, eles frequentemente enfrentam estigma social e desvantagens legais, já que a legislação tailandesa não reconhece plenamente sua identidade de gênero.

Em resumo, “Kathoey” é um termo complexo que reflete uma compreensão cultural específica do gênero e da identidade sexual na Tailândia. Ele não possui um equivalente direto nas classificações ocidentais de gênero, e sua interpretação pode variar dentro da própria sociedade tailandesa.

A vida sob os holofotes

Dado o atual debate em voga no Ocidente sobre atletas trans, não é de se surpreender que Nong Toom tenha sido uma figura um tanto controversa. Sua personalidade única — usar maquiagem e apresentar uma dança tradicional antes das lutas — fez dela uma figura cativante não apenas na Tailândia, mas também internacionalmente.

Sua ascensão não ocorreu sem críticas. Alguns tradicionalistas da comunidade do Muay Thai e da sociedade tailandesa em geral viam sua participação como uma mancha em um esporte que consideravam sagrado.

O diretor do filme *Beautiful Boxer*, Ekachai Uekrongtham, falou sobre isso em uma entrevista. Ele disse:

“Quando Nong Toom surgiu pela primeira vez no cenário, as pessoas achavam que ela manchava a reputação do muay thai. Depois, quando ela se revelou uma excelente [lutadora], conquistou respeito, mas ainda assim muitas pessoas acreditam que ela está manchando a imagem de algo sagrado. [O muay thai] evoluiu à medida que nossos ancestrais inventaram maneiras de transformar nossos corpos em armas para lutar contra os birmaneses, e é mais do que apenas um esporte. É uma tradição sagrada que está no cerne da nossa identidade nacional.”

Mesmo tendo provado ser uma lutadora competente, persistia a sensação de que ela, de alguma forma, estava “profanando” um tesouro nacional. Seus talentos eram inegáveis; seus críticos não podiam ignorar sua habilidade e sucesso no ringue. Mas suas conquistas pouco contribuíram para amenizar as críticas de que ela era uma afronta à cultura tailandesa, com alguns considerando sua mera presença no esporte uma forma de sacrilégio.

Parinya Jaroenphon

Enfrentar a principal atleta feminina do Japão, Kyoko Inoue, foi outro momento decisivo na carreira de Nong Toom. Embora tenha vencido, ela foi confrontada e levou um tapa de uma jovem tailandesa. Esse confronto ajudou a simbolizar o conflito cultural entre os valores tradicionais tailandeses e o papel emergente dos atletas trans no esporte.

Assim, Nong Toom tornou-se uma figura polêmica: uma fonte de inspiração para muitos, mas também um ponto de discórdia para aqueles que questionavam seu lugar em um esporte tão intimamente ligado à identidade nacional tailandesa.

Nong Toom não via sua identidade de gênero como algo incompatível com seu amor pelo muay thai. Ela acreditava que o esporte abrangia mais do que apenas lutar; para ela, ele representava um pedaço da cultura e da história tailandesas.

O Belo Boxer

Em 2003, foi lançado o filme *Beautiful Boxer*, do diretor Ekachai Uekrongtham. Trata-se de um filme biográfico sobre Nong Toom, vagamente baseado em sua vida. O filme explora seus primeiros anos de vida, sua luta interna com a identidade de gênero e os desafios que ela enfrentou ao praticar, como mulher transgênero, um esporte tradicionalmente masculino e de grande importância cultural. O filme aborda uma variedade de temas, incluindo identidade pessoal, coragem, aceitação e tensão cultural.

O diretor explicou suas motivações e disse:

"Ela decidiu dominar a atividade mais masculina para alcançar a feminilidade total. Achei que fosse um terreno fértil para exploração."

Quem interpretou Nong Toom no filme foi Asanee Suwan, um lutador de muay thai e ator chamado Asanee Suwan. Ele disse:

"Antes de conhecê-la, eu achava que Nong Toom usava maquiagem apenas como um artifício para ficar famosa. Agora consigo entender o que ela teve que passar e o quanto ela precisou ser corajosa."

Nong Toom compartilhou suas reflexões sobre o filme. Em uma entrevista, ela explica:

"É como olhar para um espelho que mostra imagens suas em flashback. Mas eu nunca poderia imaginar alguém fazendo um filme sobre a minha vida, pois sempre achei que os filmes fossem sobre heróis, e eu não sou um herói. O filme é o maior presente que a vida me deu até agora, porque ajuda as pessoas a compreenderem melhor [as pessoas trans], e, em nível pessoal, me ajudou a ser aceito como pessoa.”

O filme tem sido elogiado por sua fotografia e pelas atuações de seus atores, especialmente a de Asanee Suwan. Também recebeu inúmeros prêmios em diversos festivais de cinema e foi bem avaliado pela crítica por sua profundidade emocional e seu comentário social.

Por meio de uma narrativa envolvente e atuações marcantes, *Beautiful Boxer* leva a incrível história de Nong Toom a um público mais amplo, servindo tanto como uma janela para uma vida única quanto como um espelho que reflete questões mais amplas de gênero, identidade e cultura.

Considerações finais

Nong Toom desafiou as normas e os limites culturais antes da virada do século. Nong Toom é mais do que apenas uma lutadora ou uma artista. Ela é um símbolo de resiliência e transformação, desafiando as normas tradicionais ao mesmo tempo em que valoriza um esporte profundamente enraizado na cultura tailandesa. Por meio de suas lutas e triunfos, Nong Toom consolidou seu legado como uma verdadeira pioneira no esporte e no ativismo LGBTQ+.