Bokator – A Arte Antiga do Kun Lbokator
O bokator é uma arte marcial antiga que era utilizada no campo de batalha e que quase foi levada à extinção. Esse sistema de luta, originário do Camboja, tem como objetivo matar o adversário, e não se preocupa tanto em derrotar alguém no ringue, como acontece nos esportes de combate.
A tradução direta para o inglês é “Derrubando um Leão”. Esse nome tem origem em uma lenda que conta que um guerreiro defendeu sua aldeia de um leão ameaçador usando nada além de uma faca e suas próprias mãos, derrubando a fera com um único e poderoso golpe de joelho que ele aprendeu no Bokator. Aparentemente, essa história tem mais de 2.000 anos.
O nome também pode estar relacionado ao Bokator, já que muitos dos movimentos dessa arte marcial são inspirados nos movimentos dos animais. Além disso, ela possui vários estilos diferentes, cada um baseado em um animal.
Ao contrário do Kun Khmer e do Muay Thai, o Bokator incorpora armas em seus sistemas, além de técnicas de luta corpo a corpo e finalizações. O Bokator era utilizado pelas forças armadas cambojanas na antiguidade e foi concebido para ser o mais letal possível.
As origens do Bokator
Acredita-se que o bokator tenha surgido há mais de 2.000 anos e esteja intimamente ligado ao Camboja em termos de significado cultural. Suas origens exatas permanecem, de certa forma, envoltas em mistério, mas acredita-se que tenha sido praticado pelos antigos guerreiros khmer tanto para autodefesa quanto em combate.
A cultura e a filosofia indianas permeavam profundamente a sociedade angkoriana, com os grandiosos templos de Angkor gravados em sânscrito e dedicados a divindades hindus como Vishnu e Shiva. Até hoje, os praticantes de Bokator iniciam suas sessões de treinamento prestando homenagem a Brahma. Os brâmanes, conhecidos por sua proeminência na vida religiosa, eram hábeis no manejo da espada e em técnicas de combate com as mãos nuas, e sua influência é perceptível nas técnicas inspiradas em animais do Bokator.
A grandeza do rei Suryavarman II, a quem se atribui a construção do magnífico Angkor Wat, está retratada em murais em baixo-relevo que representam artes marciais e batalhas, um retrato vívido da época de 900 anos atrás. Essas representações se estendem a outros templos, como o Bayon e o Banteay Chhmar, mostrando uma variedade de técnicas de Bokator e as vitórias militares do rei Jayavarman VII.
Essa forma de arte é retratada em baixos-relevos encontrados nas paredes de templos antigos, como Angkor Wat, o que sugere sua importância no Império Khmer. Os relevos esculpidos retratam vários movimentos de artes marciais, como o estrangulamento por trás, ataques com lança, golpes de cotovelo, escudos, chutes, joelhadas e muito mais. Era muito mais do que apenas uma arte de combate.
Como se tratava de uma forma militar de combate, a arte marcial não era exibida publicamente. Em vez disso, especialistas e alunos treinavam em segredo para manter seus movimentos em sigilo diante de possíveis inimigos.
Bokator x Kun Khmer
Qual é a diferença entre o Bokator e o Kun Khmer? O Kun Khmer é uma arte marcial arcaica voltada para o combate com golpes em um contexto esportivo. Já o Bokator se concentra em qualquer forma de combate — seja com golpes ou em luta corpo a corpo — para derrotar um inimigo no campo de batalha.
O Bokator incorpora uma ampla variedade de técnicas, incluindo movimentos inspirados em animais, golpes, chaves articulares e finalizações. Possui milhares de movimentos diferentes e é um sistema abrangente de autodefesa e combate.
O Kun Khmer envolve principalmente técnicas de golpes em pé e clinch. Baseia-se em lutas disputadas em rounds, semelhantes ao boxe e ao muay thai.
O Kun Khmer é muito mais popular no Camboja, já que o Bokator foi praticamente destruído e quase se extinguiu. O Kun Khmer continua ativo até hoje, com muitas competições e academias. O Kun Khmer chegou até a ser reconhecido como esporte internacional em um torneio dos Jogos do Sudeste Asiático. Os maiores nomes do Kun Khmer costumam competir contra grandes nomes do Muay Thai.
Os esforços para preservar e revitalizar o Bokator estão em andamento. Grandes mestres e praticantes estão trabalhando para ensinar a nova geração sobre essa antiga forma de arte, a fim de mantê-la viva. Documentários e a cobertura da mídia também têm desempenhado um papel importante em chamar a atenção para o Bokator, levando a um aumento no interesse e na participação. Há também um esforço para preservar o esporte em parceria com a UNESCO. Essas iniciativas estão em andamento.
O Bokator está à beira da extinção
Durante o regime do Khmer Vermelho (1975-1979), as artes tradicionais, incluindo o Bokator, foram reprimidas. Os praticantes eram frequentemente perseguidos, o que levou a uma perda significativa de conhecimentos e habilidades. Muitos grandes mestres e praticantes foram mortos ou forçados a esconder suas habilidades para sobreviver.
Um dos mestres que ainda está vivo é Kim Sean. Em uma entrevista, ele explicou seus esforços para preservar o esporte. Ele disse:
“Eu havia dedicado minha vida às artes marciais e fiquei muito preocupado e triste ao ver que o Bokator estava morrendo. Fiquei muito preocupado com a possibilidade de ele se perder — milhares de anos de história indo por água abaixo. Muitos cambojanos nem sabiam o que era isso. Eu sabia que precisava fazer algo. Esse é o meu maior sonho. Se conseguirmos isso, minha vida estará completa. Se eu morrer, poderei partir feliz. Estamos, sem dúvida, vendo cada vez mais jovens do país se interessando pelo Bokator.”
Krama
O Krama é uma peça de roupa que representa o nível de habilidade do praticante de Bokator. Trata-se de um conceito semelhante ao sistema de faixas encontrado no karatê e no judô.
A cor do Krama indica a posição hierárquica e o nível de habilidade do praticante. À medida que os alunos avançam em seu treinamento, eles recebem Kramas de cores diferentes, cada uma marcando um marco em sua jornada. Receber um novo Krama é um evento significativo. Há cerimônias associadas à ascensão nas posições hierárquicas.
Por exemplo, um lutador precisa dominar 100 golpes para receber um Krama branco. Um Krama preto indica 1.000 golpes. E um Krama dourado é o nível mais alto que se pode alcançar e indica mais de 10.000 golpes.
O Krama é um lenço tradicional do Camboja, feito de algodão ou seda. É conhecido por seu padrão xadrez e faz parte do vestuário cambojano há séculos, não se limitando às artes marciais. Além do significado simbólico, os Kramas têm utilidades práticas. Eles protegem o praticante durante o treinamento e podem ser usados para diversos fins.
O traje tradicional inclui um krama enrolado na cintura, além do “sangvar” — cordões de seda azuis e vermelhos, amarrados ao redor da cabeça e dos bíceps do atleta. Assim como o Pra Jiad, o “sangvar” tem como objetivo trazer bênçãos e força a quem o usa.
Estilos
Existem centenas de estilos de Bokator, a maioria dos quais se baseia nos movimentos dos animais. Reza a lenda que existem mais de 300 estilos dessa arte marcial.
O estilo do Leão é a forma mais comum. Esse estilo tem origem em uma lenda antiga, na qual um guerreiro derrotou um leão. Ele incorpora movimentos poderosos que imitam a força e a agilidade do leão. Ao treinar nesse estilo, o praticante se concentra em golpes, bloqueios e saltos, refletindo a força bruta do leão.
O estilo da cobra se inspira nos golpes fluidos e mortais das cobras. Ele enfatiza a fluidez, a flexibilidade e a precisão. O objetivo é desferir golpes rápidos e precisos, visando as áreas vitais do adversário.
O estilo Macaco é inspirado na agilidade, rapidez e imprevisibilidade dos macacos. Ele utiliza movimentos rápidos, acrobáticos e erráticos para desorientar os adversários. Inclui uma variedade de golpes, agarramentos e movimentos imprevisíveis.
O estilo do elefante imita os movimentos de um elefante, simbolizando força e estabilidade. Nesse estilo, o foco está em ações lentas, porém poderosas e estáveis. Ele se concentra em dominar o adversário com pura força bruta.
Há também o estilo do cavalo, inspirado na força e na velocidade do cavalo. No estilo do cavalo, utilizam-se movimentos rápidos e de avanço, com ênfase na estabilidade e na cobertura do terreno. Ataques em investida e chutes poderosos são comuns.
O Bokator inclui estilos baseados em muitos outros animais, como o crocodilo, o veado e o gato. Cada um deles possui movimentos e técnicas únicas que refletem as características do respectivo animal.
Essa arte marcial, em geral, concentra-se tanto nos golpes em pé quanto nas técnicas de finalização no chão. Seu objetivo é neutralizar o adversário o mais rápido possível. Joelhos e cotovelos são comumente utilizados, além do clinch e da manipulação articular.
No Bokator, há combate corpo a corpo e um sistema baseado no uso de armas. As figuras são frequentemente retratadas utilizando um bastão longo, lança, varas de bambu, escudos, varas de lótus e o “trabiet”, que é uma ferramenta utilizada no cultivo de arroz.
O bokator não foi concebido para ser praticado em um ringue. Trata-se de uma arte marcial de combate focada em matar o adversário o mais rápido possível. Em termos de filosofia, é possível encontrar semelhanças entre esse sistema de arte marcial cambojano e o muay boran.
Da mesma forma, o Muay Boran é um antigo sistema marcial utilizado pelas forças armadas. No entanto, as lendas sobre o Bokator remontam a épocas ainda mais antigas.
Considerações finais
O bokator é uma antiga arte marcial cambojana caracterizada por suas técnicas inspiradas em animais, nas quais os praticantes imitam os movimentos de diversos animais, como leões, pássaros e cobras.
Seu nome, derivado de “labokatao”, que significa “golpear um leão”, tem ligações históricas com uma lenda que remonta a 2.000 anos. Essa forma de arte está profundamente enraizada na cultura e na história do Camboja. É possível apreciar os baixos-relevos em templos antigos como Angkor Wat.
Os praticantes usam um krama, um tipo de lenço, que indica seu nível de especialização, semelhante ao sistema de faixas encontrado em outras artes marciais. Apesar de ter estado à beira da extinção durante a era do Khmer Vermelho, os esforços para reviver e preservar o bokator continuam, e ele continua sendo um aspecto significativo do patrimônio cultural do Camboja.